Por
Solange Bruni

Ela
estava sozinha. Olhou pela janela num dia lindo, ensolarado e claro. Os seus
olhos estavam nublando aquele cenário pela respiração próxima a janela. Pensava
como seria maravilhoso aproveitar aquele momento em um passeio especial, com uma
pessoa especial, em lugares também especiais. Mas nada parecia diferente ali,
parada, olhando a janela, vaporizando a vidraça e sentindo o calor de uma
lágrima quente. Um vazio que foi tão forte a ponto de ser capaz de sustentar o
preenchimento de uma presença plena. O instante em que o nada é tudo. Foi um
segundo mágico, em que a solidão foi preenchida com uma presença densa. A voz
da consciência se vez ouvir: “Criador desse lindo céu, preenche esse meu
vazio”. Nada poderia ser mais pleno e
perfeito. Num suspiro profundo, uma convicção de presença. Ele escutou. Foi
transportada naquela imensidão azul para o lugar calmo, vazio aos olhos, mas
denso em sensação de completude, como se o tempo parasse e num piscar de olhos
se eternizasse o momento num simples “clic” fotográfico, mas não havia nenhuma
máquina ou recurso visual. Porém, há de se compreender que algum recurso,
desconhecido por ela, foi ali utilizado a ponto de marcar tão profundamente a
lembrança em sensação e convicção. Que recurso seria esse, tão intensamente
forte e poderoso e tão singelamente invisível? Ignorado pela sua compreensão?
Alguém chamou:
_
Sara.
Imersa
naquele momento vazio, nada respondeu, estava como que imersa numa paz.
_Sara.
(Chamou novamente a mãe dessa jovem moça com pouco mais de 16 anos.) Venha
almoçar!
O
almoço continuou em silencio. Um silêncio bom, sem nenhuma culpa por não
iniciar uma conversa qualquer, sem nenhuma profundidade. O sabor daquele almoço
foi diferente, embora sem nenhuma mudança de cardápio ou temperos, tudo parecia
bom. E o dia seguiu seu curso, sem nenhum acontecimento diferente. Tudo igual,
mas tudo diferente!
Dias
seguintes e a rotina continuava. Ia para a escola, se relacionava com amigos,
mantinha bom relacionamento com a mãe, mas não se submetia a tudo que o pai
exigia, a não ser que lhe pudesse causar algum prejuízo. Estava aprendendo a
lição da convivência sendo simpática e adorável aos olhos da maioria, mas com
posicionamentos pessoais importantes que não davam margem a que alguém achasse
que ela era dominada por quem quer que fosse. A rotina era dolorosa e Sara
sentia-se presa, o que lhe causava grande incômodo. Numa tentativa de quebrar a
rotina e desafiar as regras, provocava risos dos que estavam mais próximos com
comportamentos engraçados e estúpidos. Isso aliviava sua sensação de mesmice e
melhorava, em muito seu humor, embora sua imagem para os outros fosse de uma
pessoa distraída, maluquinha, imatura, tola. Mesmo que percebesse isso, ainda
assim, preferia continuar desafiando a maldita rotina incomoda, não se
importando com o julgamento dos outros.
Era
uma menina cheia de energia, mas com uma dose de letargia que vinha de sua
insatisfação pela vida. Insatisfação que não lhe paralisava, mas também não lhe
conformava. Embora fugisse de tudo que tentasse fazê-la igual aos outros,
buscava reproduzir em si mesma, o que acreditava ser bom.
Sara
era contraditória, pois mesmo que fugindo da mesmice, ela promovia, a si mesma,
certas rotinas, desde que estas lhe trouxessem aquela sensação de “vazio pleno”
que havia experimentado naquela manhã ensolarada e solitária. Buscava aquele
momento com avidez, precisava daquilo para tentar compreender o que foi que a
preencheu.
Descobriu
um lugar em sua cidade, um parque, calmo, onde haviam monumentos, coretos,
locais de descanso, enfim, um lugar onde começaria a buscar intensamente e rotineiramente,
o recurso para mergulhar no seu vazio e sentir-se plena pela presença daquele
ser pleno! Todos os dias, depois de sua escola, passava pelo parque, encontrava
o lugar mais solitário e ali fechava os olhos, buscando seu vazio para tentar preencher.
Nada acontecia. Fazia longas orações e nada. Dizia versos prontos e nada.
Reproduzia canções, poemas, salmos... Nada. Apenas saia mais tranquila, como
num relaxamento “zen” . Até que num dia qualquer, dessa rotina estabelecida por
quem detestava rotinas, Sara foi ao parque e não esperou nada. Sentiu-se
ridícula, percebeu que não conseguia simular a mesma sensação de novo. Olhou
pra si mesma e não fez nada. E ali, a
toa, meio chateada, sem que fizesse qualquer esforço, ela redescobriu seu
vazio! Viu que não havia nada nela mesma que pudesse produzir o vazio. Não
precisava fechar os olhos, não precisava mentalizar sensações e sentimentos,
nem ficar dizendo mantras, rezas ou orações decoradas. Quanto mais ela tentava
produzir um vazio, mais ela se afastava dele. Quando ela simplesmente parou de
tentar forjar aquele momento tão incrível vivido frente a sua janela, então se
fez o vazio. Respirou fundo, sentiu-se só. Olhou a paisagem bonita e viu nela o
mesmo de sempre. Viu que procurava algo que não conseguia achar. Ela olhou ao
céu e disse:
_Criador
da vida, preenche esse meu vazio!
Nesse
momento, uma pombinha veio voando suavemente em sua direção e pousou ao seu
lado. A pombinha ficou ali com Sara por alguns segundos. O bastante para que o
mundo parasse, ela fosse transportada para um momento eternizado, como num
“clic”. Uma convicção de presença lhe tomou. Ele ouviu! Sara chorou!